domingo, 11 de dezembro de 2016

"Não sei, só sei que foi assim" - Auto da Compadecida



Olá grifos!

Advinha quem tá voltando dos mortos? Nós \o/  espero mesmo. Depois de umas semanas sumidos.



Bora falar sobre Justiça e Misericórdia, além de cachorros enterrados em latim e não posso esquecer dos gatos que descomem dinheiro. Pois vamos para um (voz dramática):

Livro Vs "Filme"

Queria começar desabafando que ler a peça do Suassuna foi um das revelações/baques de 2016. Depois de saber que o Elvis, sim, aquele que não morreu, depois de saber que ele era loiro e que Estúdios Ghibli se pronuncia Estúdios Jiburi (naqueles momentos da vida que você fica com cara de bunda se achando burro por sempre ter falado errado), enfim, depois disso tudo restava o Auto da Compadecida dá mais uma rasteira e mostrar o quão ruins são os personagens, e não tô falando "ruim" no sentido de mal escritos/construídos, não, nada disso, garot@, tô falando "ruim" de escrotos mesmo. 

Isso me fez pensar numas coisas. Porque os personagens tanto no "filme" quanto na peça são os mesmo, mas mostrados de outra forma, são versões de uma mesma verdade ou... nós fomos simplesmente manipulados.

Já que coloquei a carroça na frente dos bois, melhor fazer um resumo da história para então voltar à discussão. Vamos para o momento:

"Aiaiaiai minha cachorrinha morreu"

O padeiro: aquele cara avarento, que repete tudo que a esposa fala (essa é a face cômica do personagem) e quer dá uma de machão.

A mulher do padeiro (Dorinha): por sua vez, adora animais e dinheiro e outras coisas também... Adultério? Onde? Ela é daquelas donas que dão bife passado na manteiga pra cachorra e nem uma "sede d'água" pro funcionário, que tá doente. Animais > pessoas.



O padre e o bispo: vou falar deles juntos pra simplificar, vamos lá, o foco deles é o lucro, puxar o saco dos poderosos e menosprezar os pobres-lascados. Acrescente um pouco de racismo, arrogância, hipocrisia e preguiça, esta última mais por parte do padre. Na peça ainda há um sacristão e um frade, mas vou cortá-los aqui igual no "filme".

Chicó: o covarde contador de histórias, o cara que foi pescado por um peixe e teve o dinheiro trocado por uma assombração de cachorro, quem nunca? Ah! Dorinha pegou.

João Grilo: o personagem principal? Posso dizer isso, produção? O amarelo mais amarelo. Um cabra pobre e esperto, que passa a perna no povo todo da história. O Grilo trabalha na padaria junto com o Chicó. 



Severino: representante do cangaço. Ele é o líder de um grupo que invade a cidade matando e roubando geral justíssimo. No "filme", ele é o Marco Nanini... não sabia disso até agora... estou me sentindo um pouco retardado por não ter percebido isso antes. Continuando: o Seve foi parar nessa vida depois que os pais dele foram mortos por policias. Complicado isso >.<

Acho que não me esqueci de nenhum outro personagem importante. Quase tudo morre! Merda, era pra avisar que vai ter spoilers...? Vai ter spoilers, gente :) 

"Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre."

O Julgamento 

Tenho que dá o braço a torcer, porque achei muito engraçado o começo, "muito bom isso", "muito bom isso", "muito bom isso" era eu lendo o livro. Não me julguem =P

  Com a maioria dos personagens mortos o cenário muda (ou não a depender da montagem da peça, às vezes nem cenário tem). Vamos pro outro lado, para a porta do inferno e do céu... e do purgatório, porque o negócio é católico.  

Encourado, vulgo tinhoso ou mochila-de-criança: o acusador. É ele quem vai ler os pecados/erros dos personagens. Creio que é por isso que chamam de "auto", não sou um especialista nisso, entretanto, deve ser por isso, por esse papo de céu e inferno, pecado e virtudes, deve ser por esse teor moralizante que chamam de "auto". Me perdi no assunto... melhor voltar.



Manuel: ora pois, estás muito giro, gajo? Desculpa, não consegui controlar a piadinha com portugueses... Voltando de novo: Manuel é Jesus. Ele aparece como negro para dá uma chocada básica na sociedade... e eu pensando que o Suassuna tinha colocado Jesus como negro por acreditar que ele realmente fosse negro, mas não, o Manuel fala lá que resolveu nascer branco e judeu e é católico. 

Compadecida: "A vaca mansa dá leite, a braba dá quando quer. A mansa dá sossegada, a braba levanta o pé. Já fui barco, fui navio, mas hoje sou escaler. Já fui menino, fui homem, só me falta ser mulher." "Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré!". Chegou a defensora desse povo todo. A Fernanda Montenegro. 



Valei-me que esse texto já passou do limite, vai acabar nunca se continuar assim. Tenho só dois pontos pra retomar o começo e fazer a comparação do livro com o "filme" (tô colocando em aspas até agora, porque se não me engano a versão do Guel Arraes é uma série ou algo no gênero editada pro cinema).

Livro Vs "Filme" (segunda tentativa)

1. João Grilo: a impressão que tive no livro foi que ele é uma pessoa mito vingativa e cruel, diferente do que eu lembrava da adaptação onde ele é o engraçadão, humilde, trabalhador, enganava as pessoas? enganava, mas, mesmo assim era por uma boa causa. No livro, fiquei até com um pouco de medo: a história da gaita que revive era para ser usada para o padeiro matar a própria mulher.

E não teve aquela cena do "filme" em que o Grilo aceita que fora uma pessoa ruim e que merece ir pro inferno mesmo, não teve esse drama todo no final, não. Na verdade - ou melhor dizendo - no livro, o Grilo pede pra ir é pro Céu, não quer saber nem de conversa sobre Purgatório. 



Isso me chamou muito a atenção. É o mesmo personagem, no entanto, ele foi pintado de maneira diferente para gerar mais empatia talvez, para o público sentir mais pena na hora do julgamento. E justamente por ser um julgamento que essa mudança de "caráter" do personagem ficou mais simbólica.

A verdade com V maiúsculo, a Verdade Real, absoluta, universal muito provável que não exista, creio que o que chamamos de verdade não passa de um bando de ponto de vistas diferentes. O João Grilo é o personagem cruel e vingativo ou é aquele pobre coitado e engraçado de que todos gostam? Isso vai depender de quem vai contar a história, de qual lado do julgamento você vai estar. Essas coisa são bem manipuláveis.  

2. Dorinha e o marido dela: na adaptação do Guel Arraes, a Dorinha explica antes de morrer mais ou menos o seguinte: ela traía o padeiro porque o amava demais e tinha medo de o perder, por isso o traiu para perdê-lo aos pouquinhos. Ownt... né? No livro, nossa! sinta a diferença, a justificativa para a traição era a forma como o padeiro trava a mulher: era violento com ela. Isso desapareceu.


MULHER: Porque era maltratada por ele. Logo no começo de nosso casamento, começou a me enganar. A senhora não sabe o que eu passei, porque nunca foi moça pobre casada com homem rico, como eu. Amor com amor se paga.

A COMPADECIDA: Eu entendo tudo isso mais do que você pensa. Sei o que as mulheres passam no mundo, se bem que não tenha do que me queixar, porque meu marido era o que se pode chamar um santo. 

O relacionamento deles é o "mesmo": os dois são casados e ela trai o marido. Mas, a forma como essa história foi contada/omitida molda a verdade em tono dos personagens e muda nossa percepção dos dois. De novo, a discussão sobre julgamentos e as várias verdades. Dá pra notar que a verdade é bem duas-caras.

Não posso esquecer que na hora da morte o padeiro pede um último desejo pros cangaceiros: "Quero que ela morra primeiro, para eu ver". Ah quanto amor.




P.S.: esqueci de falar do Palhaço.

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