sábado, 16 de janeiro de 2016

Grifo Nosso: Rosa & Bandeira


"De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp'ro, não fantaseia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular ideia."
Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa (página 03)

"Hã? Tá tudo errado aí."  

Pois é, né? O livro do Rosa é desse jeito mesmo, muito oral, na verdade é quase que um monólogo sobre jagunços, amores, o sertão, o diabo etc. Blá, blá não é disso especificamente que vamos conversar aqui, e sim sobre preconceito linguístico. Aquele abraço pra quem se acha superior por ali em cima tá "range" e não "ranger", aquele abraço pra aqueles que se esquecem que uma língua não é só a letra morta que a gente encontra nas gramáticas.

"Que absurdo, mas fantaseiar não existe." 

Oxe, por que não? Quem define essas coisas? Dá pra entender, não dá? É igual desassossego ali em cima que poucas pessoas perceberam que faltou algo, ou não, você passa os olhos e compreende, e aí? O Português não é propriedade exclusiva dos dicionários, "my precious" e intocáveis palavras. Esse tema sempre me lembra um trecho de um poema do Bandeira:


"A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo"

 Evocação do Recife, Manuel Bandeira

Sempre surge algo novo, variações, a língua quando viva se modifica a cada dia, tudo bem que algumas dessas inovações podem não vingar e se perdem, mas tem umas que vão sendo repetidas, imitadas, se tornam normais e "certas", mesmo tendo gramática/dicionário dizendo que é um erro. 

"Seje menas, não dá pra aceitar tudo errado, né?"

Tá, tá, mas o que importa aqui não é se essa ou aquela palavra tá certa ou errada, se a estrutura de frase tal tá toda errada, mas sim lembrando falar sobre preconceito linguístico (que não adianta negar, temos um pouco); o que não dá pra aceitar é usar a língua como forma de inferiorização alheia, "quieto serzinho que caga no português, seus argumentos não são válidos, sua opinião não pode ser considerada"...

Não dá pra se esquecer de que a linguagem é um instrumento de poder, de domínio (é só lembrar do Hitler, do Charles Manson, de qualquer político), e o que mais se vê na internet é algo do tipo "não discuto com quem escreve com certeza junto", isso era pra ser o quê, mesmo? Um fatality? Que falácia, viu? A pessoa não tem argumentos e fica atacando o outro em si, e não o que ele disse, fica criticando a maneira de falar, escrever... ah...

Fim... Cabô... pode ir em boa hora embora. Se bem que poderia falar ainda sobre a evolução das palavras, coisas que antes eram consideradas erradas com o tempo tomam o lugar das certas... melhor não, posso falar alguma besteira. Tchau p'ra vossa mercê ocê.


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