sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Só nas beiradas - Beira Rio, Beira Vida

Sua vida era plana, passava pelo cais de manhã e à noite, não como etapas de cada dia, mas como etapas de um caminho repetido, sem começo nem fim. Não ia nem vinha. Ia sempre para o mesmo lugar, ou vinha sempre da mesma porta.
Página 108

Antes de qualquer coisa quero esclarecer dois pontos, bem rápido:

1. Xará
Não confundir os escritores Assis Brasil e Assis Brasil, mesmo correndo o risco de talvez você não saber da existência deles é bom avisar. Um é Francisco de Assis Almeida Brasil que nasceu em Parnaíba (Pi). O outro é Luiz Antonio de Assis Brasil que nasceu em Porto Alegre. De qual vou falar? Do primeiro, o parnaibano. Okay? Okay!

2. Antes de ler!
Não sabia quase nada desse livro, escolhi ele porque aparece em algumas listas de livros do Piauí (até aqui tudo bem), mas acho que não li nenhuma resenha ou sinopse, a única coisa que realmente sabia era que o livro iria falar de alguma forma sobre prostitutas. Na minha cabeça: um livro de poucas páginas + esse tema + uma fama relativa de  ser muito bom + acontecer na beira do rio; só poderia significar...


É... eu errei, desculpa.

Agora, podemos ir pra resenha em si.

Resenha em si 

No livro há um espécie de dinastia de mulheres que lutam pra sair da pobreza (nossa!), no entanto a prostituição acaba sempre caindo sobre elas, isso vai se passando/repetindo com cada geração. A vida delas é um ciclo onde o nome da vó é o da neta, onde a filha substitui a mãe nos negócios, onde a primeira menstruação funciona como um ritual de passagem pro mesmo sofrimento das que vieram antes.

Bem, deixa contar um pouco de como funciona a história pra ficar mais claro: a personagem principal (Luíza) vai rememorando a vida dela, enquanto isso nos conta também a de sua mãe (Cremilda) e um pouco da de sua vó (também Luíza), isso tudo misturado com os diálogos com a filha  Mundoca (ela se recusou a colocar o nome da mãe - Cremilda - na filha, numa tentativa de pôr um fim à "maldição" das mulheres do cais) que ocorrem no presente. 

"Sim, agora entendo direito: é bom a gente ter uma coisa e depois ficar sem ela. Que seria de Nuno hoje se vivesse a seu lado? Não seria uma lembrança boa e sim um presença talvez até enfadonha"
Página 92

Um ponto interessante no meio disso tudo é a postura de Mundoca quando a mãe conta suas histórias, suas experiências: a moça não se deixa encantar, ela repete o livro todo "vá pro inferno" como quem rejeita aquela vida em que a  mãe tá. O que nos faz esperar pra ver se a filha vai ou não pegar bucho na beira do rio.

Algo bem presente no livro é a sociedade julgando, desprezando. A diferença social é muito tocada nessas folhas, e lembrando mas acho que ainda não tinha falado que Beira Rio, Beira Vida foi escrito em 1965, deixo uma frase pra ilustrar: "Lá é onde moram os ricos, lá é onde há emprego, um hospital. Lá vivem os que dão esmolas." (página 80). Dessa forma, as mulheres do cais apenas com suas vidinhas desonestas não passam de putas.

Mas, o melhor aspecto disparado do livro é a forma como foi contada a história. A narrativa é toda retalhada. O texto passa do presente para o passado, ou de uma lembrança pra outra tão sutilmente que é maravilhoso de acompanhar às vezes complicado

Pra fechar: pra mim, esse livro antes de qualquer coisa fala sobre o tempo, a velhice, o tédio?, sobre a decadência, sobre às vezes não sairmos do lugar. Ah... sobre o olhar julgador do outro, também, claro.


Ficha Técnica


Título: Tetralogia Piauiense (que contém Beira Rio, Beira Vida)

Autor: Assis Brasil

Ano: 2008 (2ª edição) 

Editado pela:  FUNDAPI.  

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