quinta-feira, 5 de março de 2015

Resenha: O processo, Franz Kafka


"Assim é a lei, como poderia haver algum erro?"
                                                                                                                           (pág 44)

Kafka?

     Darwin, 1º Guerra, Nietzsche, Freud, Einstein, em meio a esse mundo barulhento um judeu tcheco escrevia em alemão. Franz Kafka (1883 ~ 1924) nasceu em Praga, capital da atual República Tcheca, formou-se em Direito, viveu sob a imagem opressora do pai, insatisfeito com o trabalho, sob o olhar cheio de expectativas do Fracasso, e isso tudo transbordou para sua escrita.

     De sua obra – em parte inconclusa, em parte destruída ou póstuma – destaca-se O Castelo, Na Colônia Penal, Um Artista da Fome e a Metamorfose.





Leitura de orelha


“Alguém devia ter caluniado a Josef K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal foi detido certa manhã.”
(pág 39)

     Pronto, a partir daqui começamos a acompanhar o processo de K., cuja acusação não se sabe quem fez, ou sobre do que se trata. Caímos em um sistema de justiça viciado e estruturado de uma forma que atrapalhe a defesa; bem, e como seria possível se manter firme diante da burocracia, do ego dos juízes, do tráfico de influências, diante de suas próprias incertezas?

“Um dos quais aplaudiu para pôr-me à prova; queriam praticar a arte de fazer tombar um inocente.”         (pág. 81)


Aí que Absurdo 

     Algumas vezes quando a leitura me cansava, e eu tava prestes a deixar o livro descansar um pouco, alguma coisa estranha acontecia e me forçava a continuar; como poderia dormir depois de surgir o Açoitador...? Por quê? Queria entender... é no mínimo inesperado quando 
no banco onde o K. trabalha, ele abrir uma porta e encontrar um cara vestido de couro, com um chicote, mandando os outros tirarem a roupa, isso é quase “uma pornô”...

     O Kafka realmente gosta de brincar com o absurdo em seus textos, e n’O processo essa característica não poderia estar ausente: um advogado doente que atende na cama, salas de audiências situadas em “cortiços” e por aí segue...

Em processo...

     Aparentemente, desde muito cedo, há um convencimento de culpa: para a maioria, K. é sim culpado e ponto final, mesmo ele não tendo ideia de qual crime é esse de que tanto o acusam; transparecendo que da acusação à sentença só restam ritos obrigatórios e nada mais, passos antecipadamente ensaiados para a condenação. Que Justiça é essa? A que deixou a venda e a balança de lado, e saiu correndo no mundo só com a espada bem afiada?


     E assim, segue o processo de K. em um sistema onde as pessoas que seriam as mais atingidas pelo resultado dele (autor e réu etc) acabam tornando-se supérfluas. Os acusados vêm seu futuro afastado de suas mãos, longe até de seus conhecimentos; e alienados dessa forma permitem que tenham a sua própria vontade tragada por seus advogados que tomam conta de tudo como se deles fossem.

     Os acusados – aqui meras peças necessárias para o espetáculo, obrigados a rastejar por ajuda (é sério) – mal têm notícias de seus próprios processos, chegando a se afirmar que estes seriam inacessíveis, pois a Justiça no mundo representado por Kafka é “distante” do homem comum, porque “...nosso sistema de justiça não é muito conhecido pela população.” (pág 102) Aqui qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência (Ignorância é Força, não é verdade?).


Pós-leitura

     Aqui abro mais um parêntese para acrescentar uma interpretação interessante que encontrei enquanto pesquisava mais para terminar este texto, e que infelizmente só descobri depois de terminar o livro: (o julgamento de Josef K. seria uma metáfora ao julgamento social? Esse que sofremos sem saber todos os dias e somos condenados sem notar até que é tarde demais, onde uma calúnia pode ter mais força que a verdade? Talvez...).


Enfim

     É um livro que vai exigir certo esforço, mas que permite que se retire dele muita coisa, mesmo estando inacabado – o que, por sinal, não atrapalha muito o leitor, o que até chega a ser um fato curioso.

     Restaram ainda bastantes alegorias (se é que posso chamar assim) da leitura d’O processo: a mistura da Deusa da Justiça com a da Vitória, a conversa de Josef K. na Catedral etc. Mas como não quero me encompridar mais, acabemos aqui.


Ficha Técnica:




Título: O processo

Autor: Franz Kafka

Tradutor: Torrieri Guimarães

Ano: 2011 (5ª edição)

 Editora: Martin Claret

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